Actigrafia: entenda o exame que monitora seus padrões de sono por vários dias

A actigrafia é um método simples e não invasivo que permite avaliar como o sono e a vigília se distribuem ao longo dos dias. Por meio de um pequeno dispositivo usado geralmente no punho, registra movimentos corporais e utiliza algoritmos para estimar períodos de sono e vigília, sendo particularmente útil na investigação da insônia, dos transtornos do ritmo circadiano e do sono insuficiente.
Por medir movimento, e não diretamente o sono, possui limitações e não substitui a polissonografia quando esta é indicada. Smartwatches empregam tecnologias semelhantes, mas não são necessariamente equivalentes a actígrafos clínicos validados.
- O que é actigrafia?
- Como a actigrafia é realizada?
- Para que serve a actigrafia?
- Como a actigrafia ajuda a avaliar o ritmo circadiano?
- A actigrafia pode ser utilizada em neurologia e psiquiatria?
- A actigrafia pode ser realizada em crianças e idosos?
- Quais são as vantagens e limitações da actigrafia?
- Actígrafo e smartwatch são a mesma coisa?
- O que esperar da evolução da actigrafia?
O que é actigrafia?
A actigrafia é um método não invasivo de monitorização da atividade motora, utilizado principalmente na medicina do sono e em pesquisas sobre sono e ritmos circadianos, com aplicações também em neurologia e psiquiatria.
O exame é realizado por meio de um pequeno dispositivo chamado actígrafo, semelhante a um relógio de pulso, que registra continuamente os movimentos do corpo durante dias ou semanas. A análise desses registros permite estimar parâmetros como início e término do sono, tempo total de sono, períodos de vigília durante a noite, eficiência do sono e regularidade do ciclo sono-vigília.
O princípio é simples: durante a vigília, a pessoa geralmente se movimenta mais, enquanto os movimentos costumam diminuir durante o sono. O actígrafo utiliza acelerômetros para detectar e quantificar esses movimentos, e softwares específicos analisam os dados por meio de algoritmos validados. Alguns equipamentos também registram exposição à luz e outros parâmetros.
É importante compreender que o actígrafo não mede diretamente o sono nem seus estágios; ele estima sono e vigília principalmente a partir dos padrões de movimento.
Como a actigrafia é realizada?
O paciente utiliza o actígrafo continuamente, geralmente no punho não dominante, por um período que pode variar de alguns dias a várias semanas, dependendo do objetivo da avaliação. Em muitos casos, é solicitado também um diário do sono, no qual são anotados horários de deitar, adormecer, acordar, levantar e cochilar, além de informações relevantes, como trabalho em turnos, exercícios ou uso de medicamentos. A associação entre os registros do aparelho e o diário facilita a interpretação dos resultados.
Nos transtornos do ritmo circadiano do sono-vigília, a avaliação deve abranger vários dias consecutivos. Dependendo do transtorno investigado, recomenda-se documentar o padrão de sono por pelo menos sete dias e, preferencialmente, 14 dias, incluindo dias de trabalho ou estudo e dias livres.
Veja sobre "Como é o sono", "Distúrbios do sono", "Tipos de insônia" e "Insônia - informações básicas".
Para que serve a actigrafia?
A actigrafia permite observar o comportamento do sono na rotina habitual do paciente e durante um período mais longo do que normalmente é possível com a polissonografia.
Entre suas principais aplicações estão a avaliação complementar da insônia e dos transtornos do ritmo circadiano do sono-vigília, como os transtornos de fase atrasada ou avançada. Também pode ser utilizada para estimar o tempo total de sono em pessoas com suspeita de síndrome do sono insuficiente e para documentar o padrão de sono antes do Teste de Latências Múltiplas do Sono (TLMS), empregado na investigação de transtornos centrais de hipersonolência.
Na insônia, o diagnóstico permanece essencialmente clínico e a actigrafia não é necessária para todos os pacientes. Pode ser particularmente útil quando se deseja comparar o relato do paciente com medidas objetivas dos horários e da duração estimada do sono, ou acompanhar mudanças após uma intervenção terapêutica.
Na investigação da sonolência excessiva, não determina isoladamente sua causa, mas pode ajudar a identificar privação crônica de sono e irregularidades importantes do ciclo sono-vigília.
Como a actigrafia ajuda a avaliar o ritmo circadiano?
O organismo possui um sistema circadiano que regula funções como sono, temperatura corporal, secreção hormonal e metabolismo. Seu principal marcapasso localiza-se no núcleo supraquiasmático do hipotálamo e é sincronizado sobretudo pelo ciclo claro-escuro.
A actigrafia permite avaliar indiretamente a organização do ciclo atividade-repouso, identificando horários habituais de sono e alterações associadas, por exemplo, ao trabalho em turnos ou aos transtornos de fase atrasada ou avançada do sono-vigília.
Entretanto, a actigrafia não mede diretamente a fase do relógio circadiano. Quando é necessária uma avaliação fisiológica específica, podem ser utilizados marcadores como o início da secreção de melatonina em condições de baixa luminosidade, conhecido pela sigla DLMO (dim light melatonin onset).
A actigrafia pode ser utilizada em neurologia e psiquiatria?
Na neurologia, a actigrafia pode contribuir para caracterizar alterações do ciclo atividade-repouso em condições como doença de Parkinson, doença de Alzheimer e outras demências. Na doença de Parkinson, por exemplo, pode auxiliar na avaliação de alterações da atividade diurna e do repouso noturno. Não substitui, entretanto, exames específicos quando há suspeita de parasomnias ou transtornos de movimento relacionados ao sono.
Na psiquiatria, seu uso ocorre principalmente em pesquisas e, em situações selecionadas, como ferramenta complementar na avaliação de transtornos como depressão, transtorno bipolar e esquizofrenia. Alterações da atividade motora, dos horários de sono e da regularidade circadiana podem ser documentadas, mas esses achados não são específicos e não permitem diagnosticar ou prever isoladamente episódios psiquiátricos.
A actigrafia pode ser realizada em crianças e idosos?
Em crianças, pode auxiliar na avaliação da insônia e dos transtornos do ritmo circadiano, especialmente quando é necessário conhecer o padrão de sono ao longo de vários dias.
Em idosos, pode ajudar a identificar fragmentação do período de repouso, cochilos diurnos, horários irregulares de sono e alterações da atividade durante o dia. Também pode ser útil na caracterização do ciclo atividade-repouso de pessoas com demência.
Quais são as vantagens e limitações da actigrafia?
A actigrafia é não invasiva, indolor, portátil e relativamente fácil de utilizar, além de permitir registros prolongados com pouca interferência na rotina do paciente. Essas características também favorecem seu emprego em pesquisas com grande número de participantes.
Sua principal limitação é que mede movimento, e não sono propriamente dito. Uma pessoa acordada, porém imóvel, pode ser classificada pelo algoritmo como dormindo, enquanto movimentos durante o sono podem ser interpretados como vigília. Essa limitação pode ser particularmente relevante em pessoas com insônia que permanecem longos períodos acordadas e imóveis na cama.
Diferentemente da polissonografia, a actigrafia não registra diretamente atividade cerebral, movimentos oculares, atividade muscular, fluxo respiratório ou outros parâmetros fisiológicos necessários para diagnosticar diversos transtornos do sono e determinar seus estágios. Por isso, os resultados devem ser interpretados em conjunto com a história clínica e, quando necessário, com diário de sono e outros exames.
Actígrafo e smartwatch são a mesma coisa?
Não. Embora relógios inteligentes e pulseiras de atividade utilizem acelerômetros e princípios semelhantes, dispositivos de consumo não são automaticamente equivalentes a actígrafos clínicos validados. Os algoritmos utilizados pelos fabricantes variam e podem ser proprietários ou modificados por atualizações.
Smartwatches podem fornecer informações úteis sobre tendências gerais de sono e atividade, mas não devem ser utilizados isoladamente para confirmar ou excluir um transtorno do sono quando há indicação de avaliação médica.
O que esperar da evolução da actigrafia?
A tendência é integrar os registros de movimento a outros sinais fisiológicos, como frequência cardíaca, variabilidade da frequência cardíaca, temperatura periférica, exposição à luz e parâmetros relacionados à oxigenação. Algoritmos de aprendizado de máquina e inteligência artificial também estão sendo estudados para combinar esses sinais e melhorar a estimativa dos padrões de sono e atividade.
A aplicação clínica dessas tecnologias, entretanto, depende de validação adequada e da demonstração de desempenho consistente em diferentes populações.
Saiba mais sobre "Higiene do sono", "Usos e abusos dos tranquilizantes" e "Uma noite mal dormida: o que é e como difere da insônia".
Referências:
As informações veiculadas neste texto foram extraídas principalmente dos sites da Academia Brasileira do Sono, do Hospital da Luz (Portugal) e da Science Direct.

