AbcMed

Cotovelo deslocado: como reconhecer uma luxação e como é feito o tratamento?

Ontem
Avalie este artigo
Cotovelo deslocado: como reconhecer uma luxação e como é feito o tratamento?

A luxação do cotovelo é uma lesão traumática em que as superfícies articulares perdem seu alinhamento normal. Embora muitas vezes possa ser tratada sem cirurgia, exige avaliação médica rápida, principalmente para identificar fraturas associadas, instabilidade e possíveis lesões de nervos ou vasos sanguíneos.

O tratamento adequado e a mobilização no momento correto são importantes para recuperar a função e reduzir o risco de rigidez.

O que é a luxação do cotovelo?

A luxação do cotovelo ocorre quando as superfícies articulares entre os ossos úmero, ulna e rádio perdem sua relação anatômica normal, geralmente devido a um trauma, como uma queda ou um impacto de maior intensidade.

Em adultos, o cotovelo é a segunda grande articulação mais frequentemente acometida por luxação, atrás do ombro. A lesão é classificada como simples quando não há fratura associada relevante e como complexa quando a luxação está acompanhada de uma ou mais fraturas.

Mesmo nas luxações simples, podem ocorrer lesões da cápsula articular e dos ligamentos responsáveis pela estabilidade do cotovelo. Lesões de nervos e vasos sanguíneos são menos frequentes, mas devem ser pesquisadas cuidadosamente porque podem exigir intervenção urgente.

Quais são as causas da luxação do cotovelo?

O mecanismo mais comum é a queda sobre a mão espalmada, com o braço estendido. A força é transmitida pelo punho e pelo antebraço até o cotovelo e, associada a movimentos de rotação e estresse em valgo, pode romper progressivamente os estabilizadores da articulação e produzir a luxação.

Por esse motivo, a lesão pode ocorrer em quedas de bicicleta ou de escadas e durante atividades esportivas. Esportes de contato, ginástica e outras modalidades com risco de queda sobre o membro superior também estão entre as situações associadas à luxação. Acidentes de trânsito e outros traumas de alta energia também podem causar a lesão e tendem a aumentar a possibilidade de fraturas associadas e danos aos tecidos moles. Mais raramente, forças intensas de torção ou tração sobre o membro podem produzir determinados padrões de luxação.

A hipermobilidade articular e a instabilidade residual após lesões anteriores podem favorecer episódios recorrentes em alguns pacientes. Nas crianças pequenas existe uma condição diferente, denominada subluxação da cabeça do rádio, popularmente conhecida como “cotovelo de babá”. Ela ocorre principalmente entre 1 e 4 anos e costuma resultar de uma tração súbita do braço ou do antebraço. Nessa situação, a cabeça do rádio desloca-se parcialmente em relação ao ligamento anular e, portanto, não se trata de uma luxação completa da articulação do cotovelo.

Veja também sobre "Síndrome do ombro do nadador", "Luxação do quadril" e "Luxação da mandíbula".

Qual é o substrato fisiopatológico da luxação do cotovelo? 

A estabilidade do cotovelo depende da interação entre estruturas ósseas, cápsula articular, ligamentos e músculos. Entre os principais estabilizadores estáticos estão a congruência das superfícies articulares, o complexo ligamentar colateral lateral e o complexo ligamentar colateral medial. A musculatura que atravessa a articulação atua como estabilizador dinâmico.

Na luxação traumática mais comum, as forças aplicadas à articulação provocam lesões progressivas dos estabilizadores capsuloligamentares. O complexo ligamentar lateral tem papel particularmente importante no mecanismo clássico da luxação posterolateral, podendo haver progressão da lesão ao redor da articulação e comprometimento de outras estruturas estabilizadoras.

A cabeça do rádio e o processo coronoide da ulna também são importantes estabilizadores ósseos. Por isso, fraturas dessas estruturas podem aumentar significativamente a instabilidade do cotovelo.

Na luxação simples, há perda da congruência articular sem fratura associada significativa. Na luxação complexa, existem fraturas concomitantes, como as da cabeça do rádio, do processo coronoide, do olécrano ou, menos frequentemente, do úmero distal. 

Quais são as características clínicas da luxação do cotovelo?

As luxações posteriores e posterolaterais representam a grande maioria dos casos, correspondendo a aproximadamente 90% das luxações do cotovelo. Os padrões anterior, medial e lateral são muito menos frequentes.

Uma forma particularmente importante de lesão complexa é a chamada “tríade terrível do cotovelo”, caracterizada pela associação de luxação do cotovelo, fratura da cabeça do rádio e fratura do processo coronoide. Essa combinação pode produzir importante instabilidade articular e frequentemente exige avaliação especializada para definição do tratamento.

A pessoa com luxação geralmente apresenta dor intensa, deformidade evidente, edema e incapacidade ou grande dificuldade para movimentar o cotovelo. Na luxação posterior, o membro pode apresentar aparência encurtada e o olécrano torna-se mais proeminente posteriormente.

A avaliação neurovascular é fundamental antes e depois da redução. Devem ser examinados a perfusão da mão, os pulsos periféricos e a função dos nervos mediano, ulnar e radial. Dormência, formigamento ou fraqueza podem indicar comprometimento neurológico.

Alteração da perfusão, especialmente quando acompanhada de mão fria, pálida ou com enchimento capilar inadequado, levanta suspeita de lesão vascular, particularmente da artéria braquial, e exige avaliação urgente.

A luxação também pode estar associada a fraturas do rádio, da ulna ou do úmero distal. E em crianças, deve-se diferenciar a verdadeira luxação traumática do cotovelo da subluxação da cabeça do rádio, que é uma lesão distinta e mais comum nos primeiros anos de vida.

Infográfico - Luxação do cotovelo

Como o médico diagnostica a luxação do cotovelo?

O diagnóstico geralmente não é complexo quando existe deformidade evidente, mas a avaliação completa da lesão é essencial para identificar fraturas, instabilidade e comprometimento neurovascular associados.

Inicialmente, o médico procura determinar o mecanismo do trauma e examina todo o membro afetado. A pele deve ser inspecionada para excluir ferimentos que possam indicar uma luxação aberta. A circulação e a função neurológica precisam ser avaliadas e documentadas antes da redução e novamente após o procedimento.

As radiografias em incidências anteroposterior e lateral são os exames de imagem iniciais e geralmente confirmam a luxação, determinam sua direção e permitem identificar muitas das fraturas associadas. Após a redução, novas radiografias devem ser realizadas para confirmar o restabelecimento adequado da congruência articular e procurar fraturas que possam ter sido menos evidentes inicialmente.

A tomografia computadorizada é particularmente útil quando há suspeita de luxação complexa ou de fraturas periarticulares, especialmente da cabeça do rádio ou do processo coronoide, e também pode auxiliar no planejamento cirúrgico.

A ressonância magnética não é necessária rotineiramente na luxação aguda. Pode ser considerada em situações selecionadas, principalmente quando existe instabilidade persistente ou quando uma avaliação mais detalhada das estruturas ligamentares e dos tecidos moles pode modificar a conduta.

Como o médico trata a luxação do cotovelo?

A luxação do cotovelo é uma urgência ortopédica e deve ser reduzida o mais precocemente possível, sobretudo quando existe comprometimento neurovascular. Não se recomenda tentar recolocar a articulação no lugar sem assistência médica.

Na maioria das luxações simples e fechadas, o tratamento inicial é a redução fechada, na qual o médico reposiciona cuidadosamente as superfícies articulares sob analgesia e, frequentemente, sedação ou anestesia adequada. A técnica utilizada depende do padrão da luxação e deve evitar força excessiva.

Depois da redução, é indispensável repetir o exame neurovascular e avaliar a estabilidade do cotovelo ao longo de uma amplitude de movimento segura. Radiografias pós-redução confirmam o alinhamento articular e ajudam a identificar lesões associadas. Quando a articulação permanece estável, pode ser utilizada uma tala posterior por curto período, seguida de mobilização progressiva orientada.

Atualmente, procura-se evitar imobilizações prolongadas nas luxações simples estáveis, pois elas aumentam o risco de rigidez e perda da amplitude de movimento. Em muitos casos, a mobilização precoce, conforme a estabilidade da articulação e a orientação do ortopedista, proporciona melhor recuperação funcional do que períodos prolongados de imobilização.

Analgésicos podem ser utilizados para controle da dor e anti-inflamatórios não esteroides podem ser empregados quando apropriados, considerando contraindicações e características individuais do paciente. A fisioterapia ou a reabilitação orientada tem papel importante na recuperação da amplitude de movimento, da força e da função do membro. O objetivo é iniciar movimentos seguros tão logo a estabilidade permita, sem comprometer a cicatrização das estruturas lesionadas.

A cirurgia pode ser necessária nas luxações complexas com determinadas fraturas associadas, nas luxações abertas, quando não é possível realizar ou manter a redução fechada, quando persiste instabilidade significativa ou quando há encarceramento ou lesão de estruturas neurovasculares. O tratamento cirúrgico é individualizado e pode envolver fixação das fraturas com parafusos, placas ou outros dispositivos, além do reparo ou reconstrução de estruturas ligamentares quando indicado.

Com diagnóstico rápido, redução adequada e reabilitação apropriada, a maioria das luxações simples apresenta boa recuperação. A rigidez e alguma perda da extensão final do cotovelo estão entre as sequelas mais frequentes, enquanto instabilidade recorrente, lesões neurovasculares, ossificação heterotópica e artrose pós-traumática são complicações menos comuns, mas possíveis.

Leia sobre "Cotovelo de tenista", "Dores nas costas" e "Bursite".

 

Referências:

As informações veiculadas neste texto foram extraídas principalmente dos sites do Grupo de Cirurgia do Ombro da Santa Casa de Porto Alegre, do Hospital Israelita Albert Einstein e do MSD Manuals.

Nota ao leitor:

As notas acima são dirigidas principalmente aos leigos em medicina e têm por objetivo destacar os aspectos mais relevantes desse assunto e não visam substituir as orientações do médico, que devem ser tidas como superiores a elas. Sendo assim, elas não devem ser utilizadas para autodiagnóstico ou automedicação nem para subsidiar trabalhos que requeiram rigor científico.

Comentários
Cotovelo deslocado: como reconhecer uma luxação e como é feito o tratamento? | AbcMed