AbcMed

Chemsex e saúde: entenda a prática, os riscos e as formas de prevenção

Ontem
Avalie este artigo
Chemsex e saúde: entenda a prática, os riscos e as formas de prevenção

O uso de substâncias psicoativas associado à atividade sexual não é um fenômeno novo, mas o termo chemsex passou a ser empregado para descrever um contexto específico de uso sexualizado de drogas, inicialmente estudado sobretudo entre homens gays, bissexuais e outros homens que fazem sexo com homens. A prática não é necessariamente sinônimo de dependência química ou transtorno por uso de substâncias, mas pode aumentar a exposição a diferentes riscos conforme as drogas utilizadas, a frequência, a via de administração e as circunstâncias em que ocorre. Por isso, compreender o chemsex exige uma abordagem que integre saúde sexual, saúde mental, prevenção de infecções e redução de danos, sem estigmatizar quem o pratica.

O que é chemsex?

Chemsex (sexo químico) é uma forma específica de uso sexualizado de substâncias psicoativas, caracterizada pelo uso intencional de determinadas drogas antes ou durante a atividade sexual para aumentar o prazer, favorecer a desinibição, intensificar sensações ou prolongar as relações sexuais. Embora o uso de substâncias associado ao sexo possa ocorrer entre pessoas de diferentes orientações sexuais e identidades de gênero, o conceito de chemsex surgiu e continua sendo estudado principalmente no contexto de homens gays, bissexuais e outros homens que fazem sexo com homens (HSH).

Não existe uma definição universal de chemsex, e os critérios utilizados nos estudos variam consideravelmente. Em sua definição mais tradicional, as principais substâncias associadas à prática são metanfetamina, mefedrona e γ-hidroxibutirato/γ-butirolactona (GHB/GBL). Dependendo do contexto e da definição adotada, também podem estar envolvidos cetamina, cocaína, MDMA/ecstasy e outras substâncias. Nitritos de alquila inalados, conhecidos como poppers, são frequentemente utilizados em contextos sexuais, embora nem todas as definições os incluam entre as drogas centrais do chemsex. O álcool também pode estar presente, mas seu consumo associado ao sexo, isoladamente, geralmente não é suficiente para caracterizar chemsex.

As motivações para o uso dessas substâncias variam e podem incluir aumento do prazer e da excitação sexual, prolongamento da atividade sexual, redução de inibições, maior confiança, facilitação de determinadas práticas sexuais, busca de intimidade ou conexão e enfrentamento de inseguranças, estigma, solidão ou dificuldades relacionadas à sexualidade. Essas motivações são individuais e não devem ser presumidas pelo profissional de saúde.

O quão frequente é o chemsex?

A prevalência do chemsex varia consideravelmente entre diferentes regiões e populações estudadas, em parte porque os estudos utilizam definições, substâncias, períodos de avaliação e métodos de recrutamento diferentes. Por isso, estimativas obtidas em determinados países, aplicativos ou clínicas de saúde sexual não devem ser extrapoladas diretamente para toda a população.

Uma revisão sistemática e metanálise publicada em 2025, que reuniu 238 estudos e mais de 380 mil HSH, estimou prevalência combinada de aproximadamente 22% para chemsex e 25% para uso sexualizado de substâncias, embora com importante heterogeneidade entre os estudos. Em países de baixa e média renda, outra metanálise estimou prevalência de chemsex recente, definido como ocorrido nos 12 meses anteriores ou em período menor, em aproximadamente 16%. Esses números mostram que a prática não é rara em algumas populações, mas também reforçam que não existe uma única taxa de prevalência aplicável a todos os contextos.

Apesar de ser mais investigado entre HSH, o chemsex e outras formas de uso sexualizado de substâncias não são exclusivos dessa população. Estudos recentes também descrevem essas práticas entre mulheres e outros grupos, embora ainda existam importantes lacunas de pesquisa.

Infográfico - Chemsex

Quais são os riscos e as consequências do chemsex para a saúde?

O chemsex pode estar associado a relações sexuais prolongadas, maior número de parceiros, sexo em grupo, menor uso de preservativos e práticas que podem provocar trauma de mucosas. Esses fatores podem aumentar a exposição ao HIV e a outras IST. Entretanto, o risco individual depende do contexto: uma pessoa que utiliza PrEP corretamente, realiza testagem regular e adota outras estratégias de prevenção pode apresentar risco de aquisição do HIV muito diferente daquele de uma pessoa sem essas medidas preventivas.

Estudos observacionais e metanálises mostram associação entre chemsex e maior ocorrência de HIV e outras IST. Dados recentes também apontam associação com maior frequência de sífilis, gonorreia e infecção por Chlamydia trachomatis. É importante ressaltar que associação epidemiológica não significa que o chemsex, isoladamente, seja a causa dessas infecções; diferentes comportamentos, condições sociais e estratégias preventivas modificam o risco.

Além dos riscos relacionados à saúde sexual, existem efeitos diretamente relacionados às substâncias utilizadas. A metanfetamina e outras drogas estimulantes podem causar taquicardia, hipertensão arterial, hipertermia, desidratação, arritmias, agitação, ansiedade, paranoia, alucinações e, em situações graves, convulsões, eventos cardiovasculares e psicose. Catinonas sintéticas, como a mefedrona, também podem provocar agitação intensa, ansiedade, confusão, sintomas psicóticos e complicações cardiovasculares.

O GHB e seu precursor GBL são depressores do sistema nervoso central e apresentam uma margem relativamente estreita entre os efeitos desejados e a intoxicação grave. Doses excessivas ou repetidas em intervalos curtos podem causar vômitos, redução do nível de consciência, coma e depressão respiratória. O risco aumenta particularmente quando GHB/GBL é combinado com álcool, opioides, benzodiazepínicos ou outros depressores do sistema nervoso central. O uso frequente também pode produzir tolerância e dependência física, e a interrupção abrupta após uso intenso ou regular pode desencadear síndrome de abstinência potencialmente grave, que requer avaliação médica.

A cetamina pode causar dissociação, redução da percepção de dor, alterações de consciência e comprometimento da coordenação. O uso frequente ou em altas doses também está associado a alterações urinárias, incluindo cistite induzida por cetamina, além de possíveis complicações hepatobiliares e cognitivas.

Quando as drogas são administradas por via injetável — prática por vezes denominada slamming quando ocorre no contexto sexual — acrescentam-se riscos de abscessos e outras infecções, lesões vasculares e transmissão de HIV e hepatites B e C pelo compartilhamento de agulhas, seringas ou outros materiais utilizados na preparação e aplicação das substâncias.

O chemsex também pode repercutir na saúde mental e no funcionamento social. Alguns estudos descrevem associação com ansiedade, sintomas depressivos, psicose, dificuldades nos relacionamentos, prejuízo profissional, isolamento e transtornos relacionados ao uso de substâncias. Entretanto, essas relações são complexas e não ocorrem em todas as pessoas que praticam chemsex. Não é correto afirmar que o chemsex necessariamente provoque depressão, ansiedade ou dependência.

Outro aspecto importante é o consentimento sexual. Intoxicação intensa pode comprometer a capacidade de compreender uma situação, comunicar limites ou consentir livremente. Por isso, consentimento, limites e estratégias de segurança devem ser discutidos antes do uso das substâncias e precisam permanecer presentes durante toda a interação sexual.

Como deve ser a abordagem clínica de uma pessoa que pratica chemsex?

A abordagem deve ser acolhedora, confidencial, individualizada e livre de julgamentos. O objetivo inicial não deve ser simplesmente convencer a pessoa a interromper o chemsex, mas compreender como, por que e com que frequência ela utiliza substâncias, quais drogas e combinações utiliza, por quais vias, se já apresentou intoxicações ou abstinência e se percebe consequências negativas em sua saúde, sexualidade, relacionamentos ou vida profissional.

Também é importante avaliar saúde sexual, uso de preservativos, número e tipo de parceiros, práticas sexuais, uso de PrEP ou PEP para HIV, histórico de IST, vacinação e realização periódica de testes. Quando indicado, a investigação de IST deve considerar os locais anatômicos expostos — uretra/urina, reto e orofaringe — porque infecções extragenitais podem ser assintomáticas. A avaliação deve incluir ainda saúde mental, qualidade do sono, sintomas de ansiedade ou depressão, episódios psicóticos, ideação suicida e sinais de transtorno por uso de substâncias.

A prática de chemsex, por si só, não estabelece diagnóstico de dependência. Algumas pessoas fazem uso ocasional sem perceber prejuízos importantes, enquanto outras apresentam perda de controle, tolerância, abstinência, uso compulsivo ou manutenção do consumo apesar de consequências significativas. Nesses casos, pode ser necessária avaliação especializada em saúde mental ou medicina de dependência.

Como reduzir os danos associados ao chemsex?

As estratégias devem ser adaptadas às necessidades e aos objetivos de cada pessoa. Antes de uma sessão, pode ser útil estabelecer limites para as substâncias e quantidades que serão utilizadas, evitar misturas de maior risco, planejar pausas, alimentação, hidratação e descanso e conversar previamente sobre práticas sexuais, preservativos, consentimento e limites pessoais. Permanecer por períodos muito prolongados sem dormir, comer ou beber líquidos pode aumentar o risco de exaustão e complicações relacionadas às drogas.

No caso de GHB/GBL, é especialmente importante evitar combinações com álcool, benzodiazepínicos, opioides e outros depressores do sistema nervoso central. Repetir doses precocemente ou perder o controle sobre a quantidade e o horário das doses aumenta o risco de intoxicação. Se uma pessoa apresentar redução importante do nível de consciência, dificuldade respiratória, convulsões ou não puder ser despertada, a situação deve ser considerada uma emergência médica. Não se deve deixá-la sozinha nem tentar provocar vômito.

Para quem utiliza drogas injetáveis, agulhas, seringas e demais materiais de preparação e injeção não devem ser compartilhados ou reutilizados entre pessoas. O acesso a materiais estéreis e a serviços de redução de danos diminui o risco de infecções transmitidas pelo sangue e de outras complicações relacionadas à injeção.

Na saúde sexual, a prevenção combinada pode incluir preservativos, lubrificantes adequados, testagem periódica para HIV e outras IST e profilaxia pré-exposição ao HIV (PrEP) para pessoas com indicação. Para quem vive com HIV, o tratamento antirretroviral deve ser mantido regularmente: pessoas que alcançam e mantêm carga viral indetectável não transmitem o HIV por via sexual — princípio conhecido como indetectável = intransmissível (I=I).

Também deve ser verificada a situação vacinal, particularmente para hepatites A e B, HPV e, conforme indicação clínica, epidemiológica e recomendações locais, mpox. A periodicidade da testagem para IST deve ser individualizada de acordo com exposições e práticas sexuais.

Quando houver uma exposição com possibilidade de transmissão do HIV e a pessoa não estiver adequadamente protegida pela PrEP, a profilaxia pós-exposição (PEP) deve ser avaliada o mais rapidamente possível. A PEP é uma medida de urgência e deve ser iniciada preferencialmente nas primeiras horas após a exposição, respeitando o limite temporal estabelecido pelos protocolos vigentes.

Já o uso de antibióticos preventivos ou o tratamento empírico de outras IST não deve ser realizado automaticamente após toda sessão de chemsex. A necessidade de testagem, tratamento ou estratégias específicas de profilaxia deve ser definida conforme a exposição, os sintomas, o diagnóstico e as recomendações clínicas vigentes, evitando o uso indiscriminado de antimicrobianos.

Quando é necessário procurar atendimento médico imediatamente?

É necessária avaliação de urgência diante de dificuldade para respirar, perda ou redução importante da consciência, incapacidade de despertar a pessoa, convulsões, dor no peito, palpitações intensas, hipertermia, agitação extrema, confusão importante, comportamento psicótico ou suspeita de overdose. Ideação suicida ou comportamento que represente risco imediato para a própria pessoa ou para terceiros também exige atendimento urgente.

Pessoas que utilizam GHB/GBL de maneira frequente ou em grandes quantidades e apresentam tremores, ansiedade intensa, insônia, agitação, confusão, alucinações ou outros sintomas após reduzir ou interromper o consumo também devem procurar avaliação médica, pois a abstinência pode evoluir rapidamente e tornar-se grave.

Qual é o papel dos serviços de saúde?

Serviços de saúde sexual, atenção primária, infectologia, saúde mental e serviços especializados em álcool e outras drogas podem atuar de maneira integrada. Perguntas sobre chemsex devem ser feitas com naturalidade e sem pressupor comportamentos a partir da orientação sexual do paciente. O medo de julgamento e o estigma podem dificultar que as pessoas revelem o uso de substâncias e, consequentemente, limitar o acesso a medidas preventivas e ao tratamento adequado.

Uma abordagem multidisciplinar pode reunir prevenção e diagnóstico de HIV e outras IST, vacinação, PrEP e PEP quando indicadas, tratamento antirretroviral, redução de danos, avaliação do uso de substâncias e assistência à saúde mental. Evidências recentes sugerem que intervenções que combinam componentes comportamentais e de saúde sexual podem reduzir alguns comportamentos associados a maior exposição, embora ainda sejam necessários estudos para estabelecer quais estratégias são mais eficazes em diferentes populações.

O chemsex é um fenômeno complexo que não deve ser abordado exclusivamente como comportamento sexual de risco nem automaticamente como dependência de drogas. Seus efeitos variam amplamente de acordo com as substâncias utilizadas, frequência e padrão de consumo, práticas sexuais, condições de saúde e medidas preventivas adotadas. Uma assistência eficaz combina informação clara, prevenção de HIV e outras IST, redução de danos relacionados às drogas, atenção à saúde mental e respeito às escolhas e à autonomia da pessoa. Uma relação de confiança entre paciente e profissional de saúde é fundamental para identificar riscos precocemente e oferecer intervenções adequadas sem estigma ou julgamento.

Leia também "Sexo anal: existem riscos?", "Os perigos do sexo oral" e "Doenças da vagina" e "Doenças do pênis".

 

Referências:

As informações veiculadas neste texto foram extraídas principalmente dos sites da Revista Brasileira de Enfermagem e da Revista Brasileira de Sexualidade Humana.

Nota ao leitor:

As notas acima são dirigidas principalmente aos leigos em medicina e têm por objetivo destacar os aspectos mais relevantes desse assunto e não visam substituir as orientações do médico, que devem ser tidas como superiores a elas. Sendo assim, elas não devem ser utilizadas para autodiagnóstico ou automedicação nem para subsidiar trabalhos que requeiram rigor científico.

Comentários
Chemsex e saúde: entenda a prática, os riscos e as formas de prevenção | AbcMed