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Leishmaniose urbana?

segunda-feira, 24 de abril de 2023
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Leishmaniose urbana?

O fato

Em 06 de setembro de 2022, a Secretaria de Vigilância Sanitária da Prefeitura de Sorocaba – SP registrou o primeiro caso de leishmaniose visceral a ocorrer na cidade. Tratava-se de uma mulher de 54 anos, residente no município, cujas manifestações clínicas iniciais foram febre, fraqueza, edema, emagrecimento, palidez e esplenomegalia (aumento do volume do baço).

O caso preocupou as autoridades sanitárias porque o número de cães contaminados no município e em cidades vizinhas é significativamente elevado, gerando o medo de que a doença, comumente associada a cachorros, se torne muito incidente entre humanos e se espalhe pela cidade e por outros municípios do estado. Outro medo é que a leishmaniose, que normalmente é uma doença própria de regiões próximas de matas, se torne uma doença urbana.

Não à toa, a região norte conta com 34,9% dos casos totais no país, com uma média de incidência cinco vezes maior que a média nacional, sendo endêmica no estado do Amazonas.

O que é a leishmaniose humana?

A leishmaniose é uma doença parasitária causada por um protozoário do gênero leishmania. Existem duas formas da doença que afetam as pessoas: a (1) leishmaniose tegumentar ou úlcera de Bauru, que afeta a pele, e a (2) leishmaniose visceral ou calazar, que afeta vísceras internas. A forma cutânea causa feridas na pele e a forma visceral afeta importantes órgãos internos, como fígado, medula óssea e baço.

A doença é causada por parasitas do gênero leishmania e é transmitida pela picada de mosquitos fêmeas do gênero Phlebotomus, popularmente conhecido como mosquito palha (muito parecido com o pernilongo), que tenha picado previamente uma pessoa ou animal contaminado (canídeos como cão doméstico, raposa, roedores, etc.). O cão contaminado não transmite diretamente a doença, que depende portanto do mosquito vetor.

Ao contrário do que acontece com o Aedes aegypti, o mosquito-palha não depende da água parada para depositar seus ovos, colocando-os em matéria orgânica. Daí que casos registrados em São Paulo indicam não só a presença de cães contaminados, como a presença circulante do mosquito palha.

O mosquito palha utiliza locais úmidos e com sombra para se reproduzir, ou matéria orgânica, como folhas e frutos deteriorados. Ele também faz os seus criadouros em fezes de animais encontradas nos currais, chiqueiros e tocas.

Leia sobre "Leishmaniose cutânea e leishmaniose visceral", "Ínguas ou linfadenopatias" e "Esplenomegalia ou aumento do baço".

O que é a leishmaniose canina?

A leishmaniose canina é uma zoonose que pode ser transmitida do cão (e de outros animais) para o homem e vice-versa, por meio do mosquito vetor. Trata-se de uma doença grave que pode levar ao óbito tanto os cães quanto os humanos. Ela ataca, entre outros órgãos, o sistema imunológico do animal. No cão hospedeiro, o parasita, a Leishmania, começa a atacar as células fagocitárias responsáveis por proteger o organismo de corpos estranhos, atingindo o fígado, baço, medula óssea e outras vísceras.

Embora em humanos a forma cutânea seja a mais comum, em cães, em 99,9% das vezes, trata-se de leishmaniose visceral, porque a cutânea não tem o cachorro como seu principal alvo. A visceral, sim.

No cão, o tempo de incubação da doença é muito longo (3 a 18 meses), o que torna possível que o cachorro, apesar de estar infectado, não manifeste ainda nenhum sintoma. Quando a doença já se encontra numa fase sintomática, os sintomas mais comuns da leishmaniose canina são:

  • lesões;
  • descamação e coloração branco prateada na pele;
  • infecção nas patas;
  • pele espessada por um excesso de produção de queratina;
  • unhas espessadas e em formato de garra;
  • machucados que não saram;
  • problemas oculares;
  • e nódulos e caroços devidos ao aumento do volume dos gânglios linfáticos.

Outros sintomas dependerão de quais vísceras tenham sido atingidas.

Até a algum tempo atrás não existia um tratamento específico para pets e era comum que cães com o diagnóstico de Leishmaniose fossem sacrificados, a fim de evitar surtos da doença entre seres humanos. Até havia remédios para a doença em humanos, mas uma determinação de 1953 proibia o uso desses medicamentos em cães, com o temor de que pudessem desenvolver parasitas mais resistentes.

A partir de 2018, graças a um medicamento de uso exclusivo nos pets, a Leishmaniose deixou de ser uma doença sem cura. Essa medicação não elimina completamente a doença, mas impede a sua progressão e faz com que o cachorro deixe de ser um transmissor.

Hoje, a melhor maneira de prevenir que o cão contraia a leishmaniose é a vacina, que pode ser administrada a partir dos quatro meses de vida do animal. No entanto, os donos de cães também podem colaborar com a contenção da doença, adotando algumas medidas preventivas, tais como:

  • Eliminar possíveis criadouros do mosquito palha, como retirar matéria orgânica do quintal e não deixar lixo acumulado.
  • Limpar ambientes que tenham fezes de animais.
  • Usar no cachorro uma coleira repelente dos mosquitos.
  • Implantar telas muito finas nas janelas, porque o mosquito é muito pequeno e consegue atravessar telas com malhas maiores.
  • Evitar passeios noturnos com os animais, porque ao anoitecer o mosquito apresenta maior atividade.

Entre cães, a doença está em expansão no estado de São Paulo. Ela vem aumentando ano a ano em Sorocaba e no município vizinho de Votorantim, levando as prefeituras das duas cidades a desenvolverem trabalhos para definir estratégias de combate ao mosquito transmissor. Os cães afetados, se não forem tratados a tempo, em geral precisam ser sacrificados.

Veja também sobre "Doença de Chagas", "Doença de Lyme", "Parasitoses" e "Raiva".

 

Referências:

As informações veiculadas neste texto foram extraídas principalmente dos sites da Prefeitura de Sorocaba, da TV Sorocaba e da Fundação Oswaldo Cruz.

Nota ao leitor:

As notas acima são dirigidas principalmente aos leigos em medicina e têm por objetivo destacar os aspectos mais relevantes desse assunto e não visam substituir as orientações do médico, que devem ser tidas como superiores a elas. Sendo assim, elas não devem ser utilizadas para autodiagnóstico ou automedicação nem para subsidiar trabalhos que requeiram rigor científico.

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