Síndrome de Kearns-Sayre: a doença mitocondrial que pode afetar visão, músculos e coração desde a juventude

O que é a síndrome de Kearns-Sayre?
A síndrome de Kearns-Sayre (SKS) é uma doença mitocondrial rara, progressiva e multissistêmica, que afeta principalmente os músculos, os olhos e o coração. Trata-se de uma forma específica de miopatia mitocondrial causada por deleções em larga escala do DNA mitocondrial, comprometendo a produção de energia celular.
A síndrome é classicamente caracterizada pela tríade composta por: (1) oftalmoplegia externa progressiva crônica, (2) retinopatia pigmentar e (3) distúrbios de condução cardíaca, com início dos sintomas antes dos 20 anos de idade, o que constitui critério diagnóstico fundamental.
Além dessa tríade, a síndrome frequentemente apresenta outras manifestações neurológicas, endócrinas e sistêmicas, refletindo o comprometimento de tecidos com alta demanda energética.
A síndrome foi descrita em 1958 por Thomas P. Kearns e George Pomeroy Sayre.
Quais são as causas da síndrome de Kearns-Sayre?
A síndrome de Kearns-Sayre é causada por deleções em larga escala do DNA mitocondrial (mtDNA), que resultam em disfunção da fosforilação oxidativa e diminuição da produção de ATP.
Aproximadamente 90% dos casos são esporádicos, decorrentes de mutações novas (de novo) não herdadas dos pais. A deleção mais comum é conhecida como “deleção comum de 4977 pares de bases”, responsável por uma proporção significativa dos casos.
Como as mitocôndrias são responsáveis pela produção de energia celular, tecidos com maior demanda energética - como músculos, retina, cérebro, sistema de condução cardíaca e glândulas endócrinas - são particularmente vulneráveis.
Em raros casos, pode ocorrer transmissão materna, embora isso seja incomum na síndrome clássica.
Qual é o substrato fisiopatológico da síndrome de Kearns-Sayre?
A síndrome resulta de uma falha na produção de energia celular devido à disfunção mitocondrial, levando à degeneração progressiva de tecidos dependentes do metabolismo aeróbico.
Na biópsia muscular, observa-se a presença de fibras vermelhas rasgadas (“ragged-red fibers”), que representam acúmulo anormal de mitocôndrias defeituosas no interior das fibras musculares, um achado característico das miopatias mitocondriais.
Na retina, há degeneração primária do epitélio pigmentar da retina, com acúmulo anormal de pigmento e degeneração secundária dos fotorreceptores. Esse padrão explica o aspecto clínico denominado retinopatia pigmentar, que difere da retinite pigmentosa hereditária clássica.
No sistema nervoso central, podem ocorrer alterações da substância branca (leucoencefalopatia), degeneração neuronal e comprometimento cerebelar, resultantes da falência energética celular.
No coração, a síndrome afeta preferencialmente o sistema de condução cardíaco, podendo levar a bloqueios atrioventriculares progressivos e arritmias potencialmente fatais.
Quais são as características clínicas da síndrome de Kearns-Sayre?
A síndrome apresenta evolução lenta e progressiva, com manifestações que variam amplamente entre os pacientes. A manifestação mais característica é a oftalmoplegia externa progressiva crônica, que consiste em fraqueza progressiva dos músculos extraoculares, levando à limitação dos movimentos oculares e à ptose palpebral bilateral, frequentemente o primeiro sinal da doença.
A retinopatia pigmentar associada à síndrome caracteriza-se por alterações pigmentares difusas na retina, com aspecto em “sal e pimenta”. Diferentemente da retinite pigmentosa hereditária clássica, os sintomas visuais costumam ser mais leves e podem incluir diminuição da acuidade visual, fotofobia e, menos frequentemente, cegueira noturna. A eletrorretinografia pode mostrar respostas normais ou apenas discretamente reduzidas, ao contrário da retinite pigmentosa clássica, na qual há redução acentuada das respostas escotópicas e fotópicas.
O envolvimento cardíaco é uma manifestação crítica da síndrome. Os pacientes podem desenvolver distúrbios progressivos de condução cardíaca, especialmente bloqueio atrioventricular, o que pode levar a síncope, insuficiência cardíaca ou morte súbita, se não tratado adequadamente.
Outras manifestações neuromusculares incluem fraqueza muscular proximal leve a moderada, fadiga, intolerância ao exercício, disfagia e comprometimento dos músculos faciais.
Alterações neurológicas adicionais podem incluir ataxia cerebelar, neuropatia periférica, comprometimento cognitivo leve e alterações da substância branca na ressonância magnética.
A perda auditiva neurossensorial é comum e pode ser progressiva.
A síndrome também pode afetar o sistema endócrino, levando a distúrbios como diabetes mellitus, baixa estatura, deficiência de hormônio do crescimento, hipogonadismo, hipoparatireoidismo e, menos frequentemente, insuficiência adrenal. Em alguns pacientes, as manifestações endócrinas podem preceder os sintomas neurológicos e oftalmológicos.
Leia mais sobre "Surdez", "Aparelhos auditivos" e "Implante coclear".
Como o médico diagnostica a síndrome de Kearns-Sayre?
O diagnóstico é baseado na combinação de critérios clínicos e confirmação genética.
Os critérios clínicos clássicos incluem:
- Início antes dos 20 anos de idade.
- Oftalmoplegia externa progressiva.
- Retinopatia pigmentar.
Associados a pelo menos um dos seguintes achados:
- Distúrbio de condução cardíaca.
- Elevação da proteína no líquido cefalorraquidiano (>100 mg/dL).
- Ataxia cerebelar.
A confirmação diagnóstica é realizada por meio da identificação de deleções do DNA mitocondrial, geralmente por análise molecular em amostras de sangue. No entanto, como o grau de mutação pode variar entre os tecidos (heteroplasmia), o teste genético pode ser negativo no sangue, sendo necessário, nesses casos, realizar análise do DNA mitocondrial em biópsia muscular, que apresenta maior sensibilidade.
A análise do líquido cefalorraquidiano frequentemente demonstra elevação da concentração de proteínas, sem sinais de inflamação. A ressonância magnética cerebral pode revelar alterações da substância branca, atrofia cerebral ou cerebelar, embora esses achados não sejam específicos.
A avaliação cardiológica é essencial e inclui eletrocardiograma, monitorização ambulatorial e ecocardiografia, visando à detecção precoce de distúrbios de condução e cardiomiopatia.
Exames complementares adicionais podem incluir audiometria, avaliação endócrina e exames oftalmológicos completos, incluindo fundoscopia e eletrorretinografia.
Como o médico trata a síndrome de Kearns-Sayre?
Não existe cura para a síndrome de Kearns-Sayre, e o tratamento é voltado para o controle dos sintomas, prevenção de complicações e monitoramento contínuo das manifestações sistêmicas. O acompanhamento deve ser multidisciplinar, envolvendo neurologista, cardiologista, oftalmologista, endocrinologista, geneticista e outros especialistas conforme necessário.
Uma das intervenções mais importantes é a implantação precoce de marcapasso cardíaco em pacientes com distúrbios de condução, pois isso reduz significativamente o risco de morte súbita.
A ptose palpebral pode ser tratada com cirurgia corretiva ou dispositivos mecânicos, quando interfere na visão.
A perda auditiva pode ser tratada com aparelhos auditivos ou implante coclear, conforme a gravidade.
As disfunções endócrinas devem ser tratadas com terapia de reposição hormonal apropriada, incluindo insulina, hormônio do crescimento ou reposição de outros hormônios deficientes, conforme indicado.
A fisioterapia e a terapia ocupacional podem ajudar a preservar a função motora, melhorar o equilíbrio e reduzir a incapacidade funcional.
Em alguns pacientes com deficiência de folato no líquido cefalorraquidiano, pode ser indicada suplementação com ácido folínico (leucovorina), que pode melhorar sintomas neurológicos. Suplementos mitocondriais, como coenzima Q10, são frequentemente utilizados, embora a evidência de benefício clínico seja variável.
Como evolui a síndrome de Kearns-Sayre?
A síndrome apresenta evolução progressiva ao longo da vida, com agravamento gradual das manifestações neuromusculares, visuais e sistêmicas. A gravidade e a velocidade de progressão variam amplamente entre os pacientes, dependendo da extensão e da distribuição das deleções mitocondriais. Com acompanhamento médico adequado, especialmente com monitoramento cardiológico regular e implantação precoce de marcapasso quando necessário, muitos pacientes podem viver por várias décadas.
A principal causa de morbidade e mortalidade é o comprometimento cardíaco, particularmente bloqueios de condução não tratados. O diagnóstico precoce e o acompanhamento multidisciplinar são fundamentais para melhorar a qualidade de vida e reduzir o risco de complicações graves.
Saiba mais sobre "Fisioterapia", "Fisioterapia neurofuncional", "Terapia ocupacional" e "Reabilitação funcional".
Referências:
As informações veiculadas neste texto foram extraídas principalmente dos sites da Cleveland Clinic e da NORD – National Organization for Rare Disorders.
