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Síndrome VEXAS

Tuesday, March 14, 2023
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Síndrome VEXAS

O que é a síndrome VEXAS?

A síndrome VEXAS é uma doença autoinflamatória monogênica na qual o paciente exibe ao mesmo tempo sintomas inflamatórios sistêmicos e hematológicos. Ela tem início na idade adulta (geralmente acima de 50 anos) e afeta quase exclusivamente o sexo masculino.

O nome VEXAS é um acrônimo derivado das principais características da doença: V se refere a vacúolos que podem ser identificados nas células-tronco da medula óssea; E diz respeito à enzima conjugadora de ubiquitina E1 que está mutada nesses pacientes; X indica que o gene UBA1 mutante é localizado no cromossomo X; A refere-se às condições autoinflamatórias; e o S lembra que as mutações que causam a síndrome são localizadas nas células somáticas.

A doença foi descrita pela primeira vez em 2020, por pesquisadores do National Institutes of Health, dos Estados Unidos, liderados pelo Dr. David Beck, da Universidade de Nova Iorque. Nessa primeira descoberta, os pesquisadores identificaram 25 homens e zero mulheres nos EUA com a condição, pensando portanto que ela seria muito rara. Porém, agora novos estudos indicam que, embora rara, a síndrome é mais comum que se supunha, afetando quase 1 em cada 13.600 pessoas (1 em 4.269 homens e 1 em 26.238 mulheres, com mais de 50 anos).

Quais são as causas da síndrome VEXAS?

A síndrome VEXAS é causada por uma mutação somática do gene UBA1 em células progenitoras (precursoras) das células hematopoiéticas. A doença incide em quase um de cada 4.000 homens acima de 50 anos. Devido à sua ligação com o cromossoma X, a síndrome ocorre mais comumente em homens e com bem menos frequência em mulheres.

Como os homens são portadores de apenas um cromossoma X (XY), a alteração dele expressa imediatamente a síndrome. Já as mulheres, como carregam dois cromossomas X (XX), a alteração em um deles é largamente compensada pelo outro. Para que uma mulher adoecesse seria necessário que os dois cromossomas sofressem alterações ou que um deles estivesse faltoso.

Saiba mais sobre "Leucopenia", "Plaquetas baixas" e "Anemias".

Qual é o substrato fisiopatológico da síndrome VEXAS?

A síndrome VEXAS é adquirida, em vez de herdada. A maioria dos casos resulta de novas variantes (mutações) no gene UBA1 localizado no cromossoma X e ocorre em pessoas sem história anterior da doença na família. Tampouco a condição é transmitida aos filhos dos indivíduos afetados.

Ela se caracteriza por inflamações generalizadas, concomitantes com alterações hematológicas. Normalmente, a inflamação é uma resposta do sistema imunológico a lesões ou invasores estranhos (como bactérias, por exemplo). Em pessoas com síndrome VEXAS, parte do sistema imunológico é ativada anormalmente quando não há lesão ou invasor estranho, numa chamada reação autoimune.

A maioria dos indivíduos afetados desenvolve uma escassez de glóbulos vermelhos (anemia), e os glóbulos vermelhos presentes são anormalmente grandes (macrocíticos). As pessoas com síndrome VEXAS também podem ter baixa de plaquetas (trombocitopenia) e alguns indivíduos afetados desenvolvem síndromes mielodisplásicas, uma condição na qual as células sanguíneas imaturas não se desenvolvem normalmente e que pode progredir para uma forma de câncer no sangue chamada leucemia.

Quais são as características clínicas da síndrome VEXAS?

Os pacientes desenvolvem concomitantemente sintomas inflamatórios e hematológicos. A autoinflamação mieloide (da medula óssea) e a falência progressiva da medula óssea levam à morbidade e mortalidade substanciais. Pacientes com a síndrome VEXAS geralmente apresentam febres sem explicação e baixos níveis de oxigênio no sangue.

Há também sintomas relacionados a um sistema imunológico hiperativo, que pode causar manifestações inflamatórias em vários locais, incluindo:

  • na pele, na qual podem aparecer sob a forma de erupções que podem ser doloridas;
  • nas cartilagens, as quais podem se apresentar edemaciadas e com dor;
  • nos pulmões, onde causam encurtamento das respirações;
  • nas articulações, onde pode haver inchaço e dor;
  • e nos vasos sanguíneo, que sofrem inflamação.

Além disso, pode ocorrer também extrema fadiga, anemia, baixa de plaquetas e coágulos intravasculares. Por vezes, os gânglios linfáticos estão aumentados. Em muitas ocasiões, os pacientes com VEXAS também têm associadamente policondrite recorrente, poliarterite nodosa, síndrome de Sweet e síndrome mielodisplásica.

A síndrome VEXAS ainda costuma acontecer em pessoas que sofrem outras condições autoimunes, como lúpus, artrite reumatoide ou câncer do sangue.

Como o médico diagnostica a síndrome VEXAS?

Sendo uma síndrome nova e ainda mal conhecida, a VEXAS vem sendo frequentemente confundida com policondrite recidivante refratária ao tratamento, poliarterite nodosa, síndrome de Sweet ou arterite de células gigantes, embora seja diferente dessas condições.

Clinicamente, o diagnóstico de VEXAS deve ser suspeitado em pacientes com doença inflamatória disseminada refratária ao tratamento, associada a anormalidades hematológicas progressivas. Ou seja, é comum que se encontre:

  1. Níveis baixos de hemácias e/ou plaquetas.
  2. Episódios inflamatórios recorrentes ou de difícil controle nas articulações, olhos, ouvidos e nariz.
  3. Estreitamento ou bloqueios nas veias.

Um diagnóstico certeiro de VEXAS deve usar teste genético que demonstre mutação do gene UBA1 localizado no cromossoma X.

Como o médico trata a síndrome VEXAS?

Ainda não há tratamento padronizado para a VEXAS, contudo, as manifestações inflamatórias podem ser tratadas com esteroides ou outros imunossupressores. Alguns pacientes podem necessitar de transplante de medula óssea.

Como evolui a síndrome VEXAS?

A taxa de mortalidade da doença em cinco anos depois do diagnóstico é de quase metade dos pacientes.

Leia sobre "Leucemia linfocítica aguda", "Leucemia linfocítica crônica", "Leucemia mieloide aguda" e "Leucemia mieloide crônica".

 

Referências:

As informações veiculadas neste texto foram extraídas principalmente dos sites da PubMed e da American Society of Hematology.

Nota ao leitor:

As notas acima são dirigidas principalmente aos leigos em medicina e têm por objetivo destacar os aspectos mais relevantes desse assunto e não visam substituir as orientações do médico, que devem ser tidas como superiores a elas. Sendo assim, elas não devem ser utilizadas para autodiagnóstico ou automedicação nem para subsidiar trabalhos que requeiram rigor científico.

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