AbcMed

Tratamento cirúrgico da epilepsia

sexta-feira, 22 de dezembro de 2023
Avalie este artigo
Tratamento cirúrgico da epilepsia

O que é epilepsia?

As epilepsias são distúrbios do sistema nervoso caracterizados principalmente (mas não só) por manifestações convulsivas. Há mesmo epilepsias sem convulsões e nem toda convulsão deve ser considerada epilepsia, porque há outros motivos de convulsões, como febre, drogas, infecções, distúrbios metabólicos, traumatismos, tumores, acidentes vasculares cerebrais, etc.

Em todos os casos, ela pode ser entendida como uma alteração brusca da atividade elétrica do cérebro que interrompe a sua atividade normal. Esses “ataques”, como são popularmente conhecidas as crises epilépticas, além de serem periódicos e crônicos, são repetitivos e, muitas vezes, não têm uma causa detectável.

O tratamento da epilepsia inclui o uso de medicamentos anticonvulsivantes, para evitar ou diminuir as convulsões. No entanto, quando o uso de remédios não é capaz de controlar as crises epilépticas, o médico pode indicar a cirurgia.

O que é o tratamento cirúrgico da epilepsia?

As medicações para epilepsia associam-se a grandes problemas psicossociais e econômicos para a maioria dos pacientes, além da sua potencial inefetividade. Esses problemas incluem estigma social e a restrição para certas atividades cotidianas como, por exemplo, dirigir e nadar, que prejudicam grandemente a qualidade de vida do paciente.

O tratamento cirúrgico da epilepsia é uma opção que pode ser considerada para contornar esses problemas, quando os medicamentos antiepilépticos não conseguem controlar adequadamente as crises epilépticas. A cirurgia para epilepsia não é a primeira linha de tratamento e só é considerada quando outros métodos não foram eficazes.

Leia sobre "Epilepsias", "Crise convulsiva febril" e "Convulsões emocionais".

Técnicas do tratamento cirúrgico da epilepsia

A decisão de realizar uma cirurgia para epilepsia deve ser tomada com base em uma avaliação completa que considerará fatores como o tipo de epilepsia, a localização das crises, a gravidade dos sintomas e os riscos envolvidos na cirurgia. Além disso, o paciente deve ser submetido a uma extensa avaliação pré-cirúrgica para garantir que a cirurgia seja segura e apropriada.

Existem várias técnicas cirúrgicas que podem ser usadas no tratamento da epilepsia, dependendo do tipo dela, da localização da atividade anormal no cérebro e de outros fatores.

Alguns dos procedimentos cirúrgicos mais comuns incluem:

  1. Ressecção do foco epileptogênico: a ressecção é uma técnica usada em casos de epilepsia focal. Neste procedimento, o cirurgião remove a área específica do cérebro onde as crises epilépticas se originam. Antes da cirurgia, a localização exata do foco epileptogênico é identificada por meio de exames de imagem, como a ressonância magnética funcional e o eletroencefalograma.
  2. Calosotomia: a calosotomia é um procedimento realizado em pacientes com epilepsia grave, na qual as crises se originam de ambos os hemisférios cerebrais. O cirurgião corta o corpo caloso, uma estrutura que conecta os hemisférios cerebrais, para evitar que as descargas epilépticas se espalhem de um lado para o outro do cérebro.
  3. Estimulação cerebral profunda (ECP ou DBS – Deep Brain Stimulation, em inglês): a ECP é um procedimento em que eletrodos são implantados em áreas específicas do cérebro e conectados a um dispositivo semelhante a um marca-passo, que envia impulsos elétricos para a região cerebral. Isso pode ajudar a controlar as crises em alguns casos.
  4. Cirurgia de hemisferectomia: em casos extremos de epilepsia intratável, pode ser necessário remover um hemisfério cerebral inteiro. Isso é geralmente reservado para casos muito raros em que o dano cerebral é tão extenso que não há outra opção viável para controlar as crises.

Quais são os riscos do tratamento cirúrgico da epilepsia?

A cirurgia para epilepsia pode ser eficaz em muitos casos, permitindo que os pacientes reduzam significativamente ou até mesmo eliminem as crises epilépticas. Trata-se de um tratamento seguro que vem sendo utilizado de maneira rotineira em grandes centros há décadas. No entanto, como em qualquer procedimento cirúrgico, existem riscos e potenciais complicações, embora eles sejam muito baixos (1 a 2 %).

Os riscos e os benefícios devem ser cuidadosamente avaliados antes de se optar por essa abordagem. Portanto, é fundamental discutir todas as opções disponíveis com um neurologista especializado em epilepsia e uma equipe médica antes de tomar uma decisão sobre o tratamento cirúrgico.

Alguns dos riscos potenciais do tratamento cirúrgico da epilepsia são comuns a todas as cirurgias e incluem eventos como infecção, sangramento excessivo, danos a estruturas adjacentes ao cérebro e cicatrização inadequada. Outros são específicos dessa modalidade cirúrgica:

  1. alterações cognitivas, como problemas de memória, atenção, linguagem ou função motora;
  2. mudanças de personalidade e comportamento, incluindo depressão, ansiedade, irritabilidade ou outros sintomas psiquiátricos;
  3. perda temporária ou permanente de funções específicas, como fala, visão, audição ou movimento;
  4. recorrência da epilepsia, porque não há garantia de que a cirurgia seja 100% eficaz;
  5. mesmo após a cirurgia, alguns pacientes ainda podem precisar de medicação antiepiléptica e esses medicamentos a longo prazo podem ter efeitos colaterais indesejados;
  6. a cirurgia pode resultar em complicações a longo prazo, como cicatrizes no cérebro e/ou problemas neurológicos;
  7. e alguns pacientes podem precisar de reabilitação após a cirurgia para recuperar funções perdidas ou melhorar a qualidade de vida.

A despeito desses riscos, muitos pacientes experimentam uma melhora significativa na qualidade de vida após a cirurgia bem-sucedida.

Veja também sobre "Crises de ausência", "Crise parcial complexa", "Estado crepuscular" e  "Convulsões".

 

Referências:

As informações veiculadas neste texto foram extraídas principalmente dos sites da Biblioteca Virtual em Saúde e da UFRJ - Universidade Federal do Rio de Janeiro.

Nota ao leitor:

As notas acima são dirigidas principalmente aos leigos em medicina e têm por objetivo destacar os aspectos mais relevantes desse assunto e não visam substituir as orientações do médico, que devem ser tidas como superiores a elas. Sendo assim, elas não devem ser utilizadas para autodiagnóstico ou automedicação nem para subsidiar trabalhos que requeiram rigor científico.

Comentários