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Alterações do cortisol e impactos clínicos

Tuesday, November 18, 2025
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Alterações do cortisol e impactos clínicos

O que é cortisol?

O cortisol é um glicocorticoide produzido na zona fasciculada das glândulas suprarrenais, localizadas acima dos rins, sob regulação do eixo hipotálamo-hipófise-suprarrenal (HHS). Ele é liberado em resposta a situações de estresse físico ou emocional, pela secreção do hormônio adrenocorticotrófico (ACTH) da hipófise, que, por sua vez, é estimulada pelo hormônio liberador de corticotropina (CRH) do hipotálamo.

O cortisol atua em quase todos os tecidos do corpo, influenciando o metabolismo, a resposta imunológica, a regulação da pressão arterial e a resposta ao estresse. Ele ajuda a mobilizar energia, aumentando os níveis de glicose no sangue, e tem propriedades anti-inflamatórias e imunossupressoras, que modulam a resposta do sistema imunológico.

Quais são as fontes de cortisol?

A principal fonte de cortisol no corpo humano é a produção endógena pelas glândulas suprarrenais. Essa produção ocorre em um ritmo circadiano, com picos pela manhã (geralmente entre 6h e 8h) e níveis mais baixos à noite. Além disso, o cortisol pode ser administrado exogenamente na forma de medicamentos, como a hidrocortisona ou prednisona, usados para tratar condições inflamatórias, autoimunes ou para reposição hormonal em casos de insuficiência suprarrenal.

Situações que ativam o eixo HHS, como estresse crônico, infecções, traumas, cirurgias ou exercícios intensos, também aumentam a liberação endógena de cortisol.

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Quando suspeitar de alterações no cortisol?

A suspeita de disfunções do cortisol surge quando o paciente apresenta sinais compatíveis com hipercortisolismo ou hipocortisolismo, especialmente quando associados a alterações metabólicas ou hemodinâmicas inexplicadas.

No hipercortisolismo, chamam atenção ganho de peso central, estrias violáceas, hipertensão de difícil controle, fraqueza muscular proximal, alterações de humor e infecções frequentes.

No hipocortisolismo, a combinação de fadiga intensa, hipotensão, perda de peso, hiperpigmentação cutânea (quando presente), hiponatremia e intolerância ao estresse físico deve levantar forte suspeita.

Quais são as taxas sanguíneas normais de cortisol?

As taxas normais de cortisol no sangue variam de acordo com o horário do dia, o método de coleta e o laboratório que realiza a análise. De acordo com as referências bibliográficas desse trabalho, os valores são:

  • Manhã (7h–9h): 5 a 25 µg/dL (ou 138 a 690 nmol/L)
  • Tarde (16h–18h): 2 a 14 µg/dL (ou 55 a 386 nmol/L)
  • Noite: níveis significativamente mais baixos, geralmente abaixo de 5 µg/dL

Para exames de cortisol urinário (cortisol livre na urina de 24 horas), os valores normais variam entre 10 e 100 µg/24h, dependendo do laboratório. Já o cortisol salivar, usado para avaliar o ritmo circadiano, tem valores de referência específicos que variam ao longo do dia. Esse exame é particularmente útil por refletir o cortisol livre, não ligado a proteínas.

Quais são os efeitos clínicos das alterações nas taxas de cortisol?

Alterações nos níveis de cortisol podem causar sintomas diversos, dependendo se os níveis estão elevados (hipercortisolismo) ou reduzidos (hipocortisolismo).

O hipercortisolismo pode ser decorrente da síndrome de Cushing, de tumores nas suprarrenais ou na hipófise, do uso prolongado de corticosteroides ou de estresse crônico. Ele causa:

  • Ganho de peso, especialmente na região abdominal e facial (rosto em “lua cheia”)
  • Estrias avermelhadas
  • Fraqueza muscular
  • Hipertensão arterial
  • Diabetes tipo 2
  • Osteoporose
  • Alterações de humor (ansiedade, depressão)
  • Insônia
  • Infecções frequentes devido à imunossupressão
  • Irregularidades menstruais
  • Aumento da glicose no sangue
  • Resistência à insulina
  • Redistribuição de gordura corporal
  • Fragilidade capilar
  • Equimoses espontâneas
  • Maior risco de trombose

O hipocortisolismo pode ser decorrente da Doença de Addison (insuficiência suprarrenal primária), de insuficiência hipofisária, da interrupção abrupta de corticosteroides ou de condições autoimunes. Os sintomas principais são:

  • Fadiga extrema
  • Fraqueza
  • Perda de peso
  • Hipotensão arterial
  • Hipoglicemia
  • Náuseas e vômitos
  • Hiperpigmentação da pele (na doença de Addison)
  • Intolerância ao estresse físico
  • Desequilíbrios eletrolíticos, como hiponatremia e hipercalemia
  • Crise adrenal em fases avançadas, caracterizada por colapso circulatório e risco iminente de vida

Quais exames detectam as taxas de cortisol no sangue?

Para avaliar os níveis de cortisol, diversos exames podem ser realizados, dependendo da suspeita clínica. O cortisol sérico mede os níveis de cortisol no sangue, geralmente coletado pela manhã e, em alguns casos, à tarde ou à noite para avaliar o ritmo circadiano. O cortisol urinário livre avalia o cortisol excretado na urina em 24 horas, útil para diagnosticar hipercortisolismo. O cortisol salivar mede o cortisol livre na saliva, sendo uma opção não invasiva para avaliar o ritmo circadiano e o estresse crônico.

O teste de supressão com dexametasona é usado para diagnosticar síndrome de Cushing e avalia a resposta adequada do eixo HHS. O teste de estímulo com ACTH é utilizado para diagnosticar insuficiência suprarrenal e avalia a capacidade das suprarrenais de produzir cortisol após estímulo com ACTH sintético. A dosagem de ACTH ajuda a diferenciar causas primárias (suprarrenais) de alterações nos níveis de cortisol de causas secundárias (hipófise).

Exames de imagem, como tomografia computadorizada ou ressonância magnética, podem ser usados para identificar tumores nas suprarrenais ou hipófise, complementando o diagnóstico.

Como o médico trata o cortisol baixo e o cortisol alto?

O tratamento de cortisol baixo consiste em reposição hormonal. Pacientes com insuficiência suprarrenal recebem corticosteroides, como hidrocortisona ou prednisona, para repor o cortisol. A dose é ajustada para imitar o ritmo circadiano natural. Em situações de crise adrenal, é necessária administração intravenosa de corticosteroides e fluidos. Em casos de insuficiência secundária, pode ser necessário tratar doenças hipofisárias. A educação do paciente quanto ao uso de “doses de estresse” em infecções, febre ou cirurgias é fundamental para prevenir crises.

O tratamento de cortisol alto baseia-se no manejo da causa primária. Na síndrome de Cushing, a abordagem depende da etiologia; tumores hipofisários ou suprarrenais geralmente requerem cirurgia. Em tumores inoperáveis, medicamentos podem reduzir a produção de cortisol. Quando o hipercortisolismo é induzido por corticosteroides, a redução gradual da dose é essencial para evitar insuficiência suprarrenal. Além disso, algumas terapias direcionadas ao eixo HHS podem auxiliar no controle da secreção hormonal.

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Quais são as complicações possíveis com as alterações de cortisol?

O hipercortisolismo pode levar a hipertensão e aterosclerose, osteoporose com risco de fraturas, imunossupressão com maior suscetibilidade a infecções, distúrbios psiquiátricos (ansiedade, depressão, alterações cognitivas) e diabetes tipo 2, resultante da resistência à insulina induzida pelo cortisol. Também aumenta o risco de eventos tromboembólicos e de miopatia proximal.

O hipocortisolismo, por sua vez, pode evoluir para crise adrenal, uma emergência médica caracterizada por hipotensão grave, desidratação e choque, potencialmente fatal. Além disso, desequilíbrios eletrolíticos como hiponatremia e hipercalemia comprometem o funcionamento cardíaco e sistêmico. A fadiga crônica prejudica de forma importante a qualidade de vida. A crise adrenal permanece como a complicação mais grave e exige intervenção imediata.

 

Nota ao leitor:

As notas acima são dirigidas principalmente aos leigos em medicina e têm por objetivo destacar os aspectos mais relevantes desse assunto e não visam substituir as orientações do médico, que devem ser tidas como superiores a elas. Sendo assim, elas não devem ser utilizadas para autodiagnóstico ou automedicação nem para subsidiar trabalhos que requeiram rigor científico.

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