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Suplementos "anti-idade" prolongam a vida? O que diz a ciência e o que médicos recomendam

Wednesday, October 15, 2025
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Suplementos "anti-idade" prolongam a vida? O que diz a ciência e o que médicos recomendam

Quem acompanha perfis de longevidade nas redes sociais já se acostumou a ver frascos e mais frascos de cápsulas, pós e gominhas promovidos como atalhos para viver mais e melhor. Influenciadores com até milhões de seguidores transformaram rotinas de suplementação em vitrine, muitas vezes atreladas a lojas próprias e patrocínios.

Mas, diante de tanta promessa, a pergunta é direta: existe, hoje, algum suplemento que já tenha demonstrado, em um grande ensaio clínico, aumentar a expectativa de vida humana? Segundo alguns médicos e cientistas, a resposta é não.

“O conjunto de produtos vendidos e promovidos por influenciadores e supostos ‘especialistas’ em longevidade carece de dados robustos”, resumiu o cardiologista e pesquisador Eric Topol.

Outros pesquisadores da área são mais otimistas quanto ao potencial dos suplementos para melhorar o tempo de vida saudável (quanto tempo uma pessoa vive sem doenças graves) e afirmam que os comprimidos e os pós podem ter um papel importante no apoio à saúde das pessoas à medida que envelhecem. Mas isso desde que o setor enfrente os riscos ao consumidor e as falsas promessas.

Leia sobre "Suplementos alimentares - devemos usá-los?" e "O envelhecimento saudável".

Os tipos de suplementos promovidos para o envelhecimento saudável

Na prática, os suplementos vendidos com apelo de envelhecimento saudável se dividem em dois grupos.

1) Vitaminas e nutrientes tradicionais (vitamina D, vitamina B12 e ômega-3)

São os mais citados por médicos que atendem idosos, principalmente porque deficiências são comuns: B12 pode ser mal absorvida com o avanço da idade (e por uso de certos medicamentos); quem toma pouco sol pode apresentar baixos níveis de vitamina D; e quem quase não consome peixe tende a ingerir pouco ômega-3. Estudos observacionais associam níveis baixos de vitamina D e ômega-3 a maior risco de doenças cardiovasculares, câncer e osteoporose, o que motivou grandes ensaios clínicos. O veredito, porém, foi tímido.

Em dois dos maiores ensaios clínicos sobre o tema, o VITAL, de 2018 (conduzido nos EUA) e o DO-HEALTH, de 2020 (conduzido na Europa), milhares de participantes idosos que tomaram vitamina D e/ou ômega-3 por 3 a 5 anos não apresentaram benefícios no que diz respeito a diagnósticos de câncer, saúde cardiovascular, fraturas ósseas ou cognição. Um sinal positivo apareceu apenas em um subgrupo de pessoas que comiam menos de 1,5 porção de peixe/semana, e tiveram queda em infartos e AVC ao usar ômega-3. Já pessoas que tinham níveis baixos de vitamina D quando se inscreveram nos estudos não tiveram desfechos melhores com a suplementação.

Análises de acompanhamento recentes desses ensaios trouxeram um novo detalhe instigante, sugerindo que esses suplementos podem impactar aspectos do próprio processo de envelhecimento: a vitamina D foi associada a menor encurtamento de telômeros e o ômega-3 foi associado a um ritmo mais lento de envelhecimento biológico. Segundo a epidemiologista JoAnn Manson, esses efeitos podem estar relacionados às propriedades anti-inflamatórias dos suplementos, mas ela alerta que falta demonstrar como exatamente isso se traduziria em mais anos de vida.

Na prática clínica, muitos médicos adotam uma abordagem personalizada ao aconselhar pacientes sobre suplementos vitamínicos. Quando há suspeita ou constatação de deficiência, a suplementação de vitamina D, vitamina B12 e ômega-3 pode ser considerada, mas em pessoas com dietas equilibradas e sem sinais de carência, normalmente os profissionais não recomendam suplementar apenas “por precaução”.

2) Suplementos experimentais (NAD+, espermidina, urolitina A, entre outros)

Nesse grupo entram moléculas que o organismo já produz e que declinam com a idade. Alguns pesquisadores acreditam que elas têm o potencial de melhorar a expectativa de vida e neutralizar o declínio nas funções dos órgãos e músculos que ocorrem com o envelhecimento.

Em teoria, essas moléculas podem ter benefícios antienvelhecimento se suas quantidades forem aumentadas por meio de suplementação. Por exemplo, o dinucleotídeo de nicotinamida adenina (NAD+) desempenha um papel essencial na produção de energia celular e seus níveis diminuem com a idade. A espermidina parece estimular a autofagia, uma maneira pela qual o corpo recicla proteínas e partes celulares danificadas; a autofagia também diminui com a idade. A urolitina A é produzida por bactérias intestinais e acredita-se que melhore a saúde das mitocôndrias, que funcionam como a usina de energia da célula.

Estudos com minhocas, roedores e células em cultura tiveram resultados que parecem animadores: melhora de marcadores de envelhecimento e, às vezes, extensão de vida. Mas os poucos estudos clínicos em humanos feitos até agora mostram benefícios modestos ou inexistentes.

Para Eric Topol, grande parte desse entusiasmo ainda é “jogo de fumaça e espelhos”. Ele alerta que há uma grande diferença entre melhorar a saúde de um camundongo ou ajudar uma minhoca a viver mais e demonstrar o mesmo benefício em uma pessoa.

O resveratrol, por exemplo, que já foi muito falado com um possível suplemento anti-idade, saiu dos holofotes após fracassar em reproduzir para humanos os ganhos observados em animais.

Saiba mais sobre "Deficiência de vitamina D", "Benefícios do ômega 3 para a saúde" e "Deficiência de vitamina B12".

Segurança e qualidade: o que o rótulo promete nem sempre é o que há no frasco

No caso de suplementos experimentais, a falta de ensaios clínicos de longo prazo também significa que há questões em aberto sobre a segurança desses suplementos. Alguns podem ser aceitáveis em pequenas doses ou quando tomados por curtos períodos de tempo, mas podem ocorrer efeitos colaterais inesperados ao longo de muitos meses ou anos.

Soma-se a isso um problema regulatório já conhecido em suplementos: rótulos imprecisos. Em uma análise recente de suplementos de NMN (mononucleotídeo de nicotinamida, uma molécula relacionada ao NAD+) e de urolitina A, a maioria dos produtos tinha quantidades diferentes das declaradas, às vezes com 100% de discrepância, em todas as faixas de preço e marcas testadas.

O que fazer, então?

Especialistas não dizem que todos devam evitar qualquer suplemento, mas recomendam cautela. Se o paciente optar por compostos “anti-idade”, a sugestão é envolver um médico familiarizado com esses produtos, monitorar efeitos e priorizar marcas com controle de qualidade transparente. Ao mesmo tempo, lembram que o potencial de dano mais imediato pode ser outro: o bolso, principalmente quando não há evidência de benefício claro.

E há o recado que atravessa décadas de pesquisa: se a meta é aumentar saúde e longevidade, existem estratégias comprovadas e de baixo risco que não dependem de frascos e cápsulas. “Se você quer algo que de fato mude o envelhecimento biológico e epigenético, é o exercício físico”, reforçou o médico Eric Topol.

Veja também sobre "O processo de envelhecimento", "Longevidade - o que é" e "Medicina do estilo de vida e seus pilares".

 

Referências:

As informações veiculadas neste texto foram extraídas de um artigo publicado no The New York Times.

Nota ao leitor:

As notas acima são dirigidas principalmente aos leigos em medicina e têm por objetivo destacar os aspectos mais relevantes desse assunto e não visam substituir as orientações do médico, que devem ser tidas como superiores a elas. Sendo assim, elas não devem ser utilizadas para autodiagnóstico ou automedicação nem para subsidiar trabalhos que requeiram rigor científico.

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